domingo, 11 de dezembro de 2016

Cupido e o poeta

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Lá fora desabava o mundo em água
Cá, a lareira beijava o poeta
Ferindo o firmamento
Numa estranha sinfonia
Trovões berravam impropérios,
Colorindo de noite o dia
Relâmpagos e raios se revezavam
Cada vez mais rápido, vertiginosos cada vez mais

Fraca a batida na porta
Estado de alerta
“Devo estar imaginando.
Quem ousaria tomar uma chuva dessas?”
Nova batida na porta;
Receoso, levanta-se o poeta
E, ao se aproximar,
O vento lhe traz um sussurro:
- Abrigo, por favor!
Como criança, não sou forte
Fui atingido, preciso de ajuda
Pois as gotas me ferem feito chicote

Preocupado
Destrava o coração, abre a porta.
— Espero não ter me enganado!
— Asas ensopadas,
Arco avariado! – defende-se, com os dois
Pequenos pedaços de oceano a fitá-lo.
O poeta hesita, mas não nega o abrigo
Frágil feito cristal
O que esse garoto poderia fazer comigo?

Acolhe o menino, dá-lhe comida
Coloca-o ao pé da lareira
Seca-lhe os cachinhos dourados, as mãos e os pés molhados.
— Estou bem melhor, mas tempo que a umidade
Tenha o meu arco danificado.
Será que posso fazer um teste? Talvez esteja enganado

O poeta permite e vê o menino apanhar uma flecha.
Estica a corda do arco e a encaixa nesta.
Puxa e não solta.
Vira-se à busca de uma mira.
Então, aponta na direção de seu anfitrião.
E, sem titubear, acerta-lhe o coração.

— Está perfeito meu arco! — comemora — Não está quebrado.
— Feriu-me! — espantado, exclama o poeta.
— Acalma-te, não hás de perecer deste mal.
Embora, a partir de hoje, esteja condenado.
— E esta queimação, esta angústia?
Falta-me discernimento, sobra-me aflição
— Tenho uma novidade para dividir contigo.
— Tu, Anacreonte, abrigaste ao Cupido.
Tal abatimento talvez cause sofrimento,
Às vezes, um pouco de dor.
Mas não é enfermidade, fraqueza ou demência
É apenas paixão,
É somente amor.


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