terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Dispa-se. Dispa-se dos preconceitos.




Tem muita gente por aí torcendo o nariz para a onda de livros eróticos que invadiram as editoras.
Não discuto aqui a qualidade das obras. Umas são mais bem escritas que as outras, mas isso acontece em todos os gêneros. O que é preciso dizer sobre essa onda, talvez passageira ou não, é prateleiras das editoras e se transformaram, rapidamente, em sucesso mundial. Muitos consideram uma literatura água com açúcar, descartável e que lembra em muito os livros das séries Bianca, Sabrina e Júlia, que eram vendidos em bancas de jornal ou facilmente adquiridos em feiras públicas.



Apesar da crítica desfavorável, os títulos se transformam em fenômenos de vendas e agradam mulheres diferentes, de diferentes países; levando-se a criar a denominação de “mommy porn” (pornô para mamães) para este gênero.



O precursor dessa onda, o primeiro livro da trilogia, escrito pela inglesa Érica Mitchel - mais conhecida pelo pseudônimo E. L. James - e nomeado 50 Tons de Cinza (50 Shades of Gray no original), só no Brasil já vendeu mais de 300 mil exemplares, e mais de 40 milhões de exemplares no mundo. Mais do que isso, direcionou a visão da indústria editorial para um público que ainda não havia sido fisgado por outros gêneros.



Esbarro com os títulos dessa trilogia diariamente nas estações de metrô. As leitoras são as mais variadas: adolescentes, jovens, mulheres acima dos trinta, de diversas raças e, acredito eu, diversas religiões. Todas compenetradas em suas leituras; uma leitura fácil e, por esse motivo mesmo, de fácil absorção. Mais interessante que isso é que o sexo, um dos tabus de nossa sociedade, representado pelo relacionamento entre o casal principal do livro, é o assunto ali retratado. E essas mulheres realizam suas leituras sem nenhuma vergonha, sem necessariamente estarem se expondo, avalizadas pelo fato de ser o livro um Best-seller e de que “aqueles que não o estão lendo, estão falando sobre ele”.



Altamente influenciado pelo fenômeno dos 50 tons, a escritora Sylvia Day, uma americana, escreveu a trilogia Crossfire, publicado no Brasil pela editora Paralela e cujo primeiro volume ganhou o nome de Toda Sua. Atualmente, esse título já ocupa o terceiro lugar entre os livros mais vendidos do Brasil, no gênero ficção, perdendo apenas para a série que lhe serviu de inspiração.



Esses números exprimem que a tendência desse mercado é crescer e segundo site Pausaparaumcafe.com.br, pelo menos 25 obras eróticas já foram compradas ou estão em processo de negociação com as editoras estrangeiras. Muitos títulos já chegaram aqui e, o interessante, por meio de editoras que, em sua maioria, não são grandes, ou são “braços menores” de editoras consagradas. Tais como: Luxúria, de Eva Berlin (editora Leya); Falsa Submissão, de Laura Reese (Record); Belo Desastre, de Jamie Mcguire (editora Verus); Algemas de Seda, de Frank Baldwin (editora Geração); Butterfly, de Kathryn Harvey (Universo dos livros), Bem Profundo, de Portia da Costa (editora Planeta), entre outras.

Motivadas por promessas de romances quentes, essas leitoras consumem avidamente esses romances e vão buscando títulos similares. Em um país em que a juventude não lê tanto quanto devia, creio que fenômenos como esse – e que já havia ocorrido anteriormente com livros de outros gêneros como Harry Potter, Senhor dos Anéis, Código Da Vinci e Guerra dos Tronos – devem ser louvados porque eles são a porta de entrada para a chamada “grande literatura”.



Quem sabe essas mesmas leitoras, ávidas pelas cenas quentes entre as Anas, as Evas, os Christians e os Gideons, não acabem descobrindo a existência de um Marquês de Sade, ou então de Pauline Réage, responsável pelo romance A História de Ó, publicado na França em 1954, e que se tornou o ícone da literatura erótica do século XX. Tratando-se de literatura, tudo é possível.



Mas para isso, é necessário despirmo-nos de nossos preconceitos e aceitar a leitura do outro, seja ela qual for.



Por Elih Brito para Rede Webtv, publicada em 04/11/2012


http://redewebtv.webs.com/

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