sábado, 9 de abril de 2011

Loucura


Da sandice dos loucos
Compartilho um pouco
Até demais
Mas temo mesmo
A loucura dos normais

Desejo


O desejo dá medo ás vezes,
medo de uma amor nascer
em meio a braseiros
Medo dele incendiar e crescer
de modo corriqueiro
E apertar e sufocar
e estrangular
O simples desejo.
Medo o amor dá
E o desejo vem sempre primeiro
sem cobrança, sem compromisso,
sem isso e aquilo
O desejo vem sem vir
e tem pressa
e nem quer ficar, pois passa.
Mas o amor este chega e fica
Começando a assustar.
Maior tristeza não vejo
Quando um é Amor,
E o outro, Desejo

Posse



Posso qualquer coisa
Quando colo minha boca ao seu ouvido
Roubo seu sentido
Tiro sua razão

Sinto que é por mim
Que seu corpo inflama
Se entrega
Se derrama

Num tremor que não é de emoção
Neste momento sou tua única dona
E tu, escravo das minhas mãos, olhos e boca
Se deixa entorpecer

Mesmo quando quer que eu pare
Lhe falha a voz que é rouca
Tomo posse de tua alma

Consumindo-te com uma ânsia louca
E tudo podendo
Com o seu ouvido em minha boca




Ao poeta



Madrugada, tua morada
Perde-se no mundo
Na noite esconde-se
Poeta insone

Ergue seu palanque
Em toda e qualquer calçada
Versos de sangue
Na voz abafada

Sua realidade é seu poema
Sua verve implacável
Aborrece o sistema
E permanece inabalável

Sua simples arrogância é sua coragem
Sua métrica é sua incredulidade
E assim amaldiçoa rindo
Os contrários da humanidade

Aos deuses todos do asfalto desafia
Falando a todos, sem  se dirigir a ninguém
Consegue ser pura a tua ousadia
Ser ateu o teu amém

Declamas tuas experiências,
Poeta, teus vícios
Falas mesmo quando teu único ouvinte
É o lixo

Oceano



Como chuva fina surgiu
Num dia como outro qualquer
Ventania de criatividade –
Sinuosa, incompreensível, arrebatadora

Então virou, de repente,
Imensa vontade de se derramar –
Assustadora força para converter
Letras em um rio de escrever

Cachoeira de inspiração
Que não cessava de cair
Num crescente contínuo
Singrando pouco e pouco
Seu caminho

E um belo dia
As formas conduzia
Remando expressões
Pescador dos próprios sentimentos
Remador de alheias sensações

Estendeu seus braços por onde passou,
Ganhou afluentes
Tornou febris os tristes
Curou da apatia os doentes

Quando se descobriu
Já adquiria outras formas
Não atendia a todos
Estava os afogando:
Águas da cultura a se chocar –
Amanheceu Oceano.

Quis correr livre
No arrebatamento inicial
Cumprir seus votos
Mas já não podia
Qualquer arroubo seu –
MAREMOTO.

E foi então que percebeu
Que muitos se afastaram
Temendo-lhe a grandeza
E com medo de se machucar:
- Canoa pequena não enfrenta o Mar.

Crescera em largura,
Mas o sentido ficou para trás
A inspiração virou tortura
As rimas ricas viraram pobres
A brincadeira sonora, simples acorde.

Utilizou, assim, seu único pedido
Às deusas mitológicas da Arte
Despiu-se da arrogância – roupagem
Da métrica da forma – suas luvas
E nessa nudez simbólica
Voltou a ser chuva.

E como chuva não perdeu mais o caminho
Se derramando em palavras
Fininhas, fininho
E de gota em gota
Fez florescer sementes
Que antes eram comida de larvas

E quando menos notou
Fez surgir uma floresta
Em meio à selva de cimento
As árvores chamadas leitura
Os frutos, conhecimento.

Rápido






Haveria mais tempo
para mover tuas paixões
e redimir tuas vontades
Se tudo não fosse assim: tão rápido

Madrugada


Madrugada,
Estou trabalhando
Meu amor, em casa,
Sonhando

Será que comigo?

Na possibilidade da negativa
Vou ficando desesperada
Pois sonho com ele
Mesmo estando acordada



Anatomia



Se não acreditas
não pronuncio mais meus sentimentos
deixo de te dizer que te amo
e que ao teu lado
sou capaz de sentir
o indiscritível, o que não á pronunciado

Não falo do estranho fascínio
que me provoca teu corpo todo
ao me apresentar uma rota ímpar
que me obriga a me perder ao te encontrar

Não descrevo o caminho do teu rosto
que chego percorrendo com beijos o teu pescoço
Não digo o que vejo
quando minha boca chega a teu queixo

Não digo a textura de tua pele
não descrevo tua boca, teus lábios tão seguros
que quando me beijam ou mordem
me fazem perder o controle, o sentido

Não descrevo a impetuosidade
de teus olhos
que me despem sem me tocar
que me dizem tudo o que falar

Não falo de tuas mãos
fortes, marcadas
que ganham a sensibilidade
de um escultor quando me tocas

Não repito que tua volúpia incansável
insaciável resistência
me fazem cada vez mais dependente
de tua falsa inocência

Esqueço tudo
tuas costas, tuas pernas
teus ombros, teu peito
cada centímetro teu existente
até mesmo o vício que me causam
sensação inexistente

Não falo também de tua presença
que me acompanha

sempre, a cada hora, minuto, segundo
do dia, da noite, do mês
do ano, da vida.

Se não acreditas
cesso então de falar,
de expor, de explicar
de esclarecer, de me declarar

Finjo esquecer tua anatomia
e sigo ao teu lado
te amando, te sentindo, te descrevendo
através da linguagem do corpo
que diz tudo mesmo calado



Opostos

pbase.com
Ele indo, eu vindo
eu rindo, ele chorando
ele sentindo, eu debochando
eu lendo, ele beijando
ele escrevendo, eu provocando
eu sonhando, ele vivendo
ele brincando, eu discursando
eu aplaudindo, ele vaiando
ele repreendendo, eu apoiando
eu calando, ele gritando
ele confundindo, eu simplificando
eu afirmando, ele negando
ele passando, eu ficando
eu planejando, ele lembrando
ele se esquivando, eu me entregando
Eu amando, ele imitando

Amor, esse laço

O Amor é um embaraço
Se não me perco,
Não me acho
E se me acho perco o compasso

Tão contraditório sentimento

É veneno que cura
É antídoto que vicia
É eterno sem ter tempo
É razão que se desavaria


O maior de todos os temas
E o tema que ninguém domina
O amor, minha fortaleza
Ao mesmo tempo minha ruína

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Ocaso II



Olhe que a velhice te espreita
Na esquina do teu caminho
No ocaso da sua rota
No limiar do seu destino

Espia em teu espelho
Logo, logo teu inimigo
Esse rosto que vislumbras hoje
Amanhã não se parecerá contigo

Tenha pressa em dizer te amo
Tenha calma em repeti-lo
A vida logo nos afasta
Dos amores, da família , dos amigos

Seja louco, seja gênio, seja fraco,
tome um porre enquanto há tempo
Não condene o imponderável
Não espere a vida inteira
Se jogue na estrada por onde quiserem ir seus passos

Porque assim, antes do que imagines,
Tu só serás , tão somente, passado.

Tem horas...

Tem horas em que a palavra certa não vem

E a gente cala

Engasga, gagueja

Deixa o pensamento travar o que o coração planeja

O que a boca enseja

E o que os olhos falam

Definição



Sou palavra, sou ação
Dor, raiva, frustração
Sou pele, sou sangue
Sou sensação


Nem fábula
Nem receita
sem medidas fui feita
Nessa desmedida lei da imperfeição


Não sou mito, não sou muito
Nem sou mártir
Nem primavera, nem dia de chuva
Sou apenas partícula nessa imensidão

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Indignação



De que adianta o céu azul?

As pessoas estão com a alma cinza

De que adianta a imensidão do mar?

O ser humano está cada vez menor

Em sua pequeneza gigante

Em seu egoísmo monstruoso.

Os bons ventos não trazem mais notícias boas

Elas são raras  como flores nascidas no asfalto.

E a mãe terra, protetora, agoniza nas mãos

De seus filhos párias, homicidas e ingratos.