quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Caminheiros


O mundo deriva de mim,
passa nas mil janelas,
luzes, impressões,
nos transeuntes caminheiros
a caminho do fim.

Tentativa

Tentou-me
Tentei-lhe
Tentamo-nos
finda a tentação
Viramos tentativa

Objetivo

Domar os teus
sentimentos
Falar à tua paixão
não através do ouvido
Nem pelos argumentos
que só dizem à razão

Mas sim por versos tremidos,
mais pelo movimento
do que pela emoção.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Ocaso

As mãos cheias de impotência
ante os nossos heróis
que mesmo fracos
ainda são sábios demais


Quando o cair das cortinas se aproxima
O ocaso dos espetáculos
eles se retiram à francesa
sob a chuva de aplausos


Não retornam mesmo com os pedidos de bis
mas sua arte, sua história
permanece
forte, viva, pulsante, feito raiz

I

Era, simplesmente
viver: Vivia.
Sem um firme querer:
Resumidamente


Até que feito semente
nasceu-me no peito
desejo ardente


E eu que nunca soube nada
e nem me sabia
Só de pretender
já amanheço outro dia

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Conversa banal

Queria declamar um poema
como quem fala de carne, de pão
de assuntos corriqueiros
como futebol e inflação

Sem pressa, sem voz embargada
como quem fala a troco de nada
mesmo sem ter razão

Contar com a voz a sorrir
como se fosse novidade
prender, intrigar, envolver, seduzir
feito assunto para o qual nunca é cedo ou tarde

Queria saber declamar
e não somente derramar palavras ao papel
calando o som que nelas existe

Transformar todo e qualquer poema em banal conversa
afastá-lo da leitura normal
como bula, testamento ou edital
Separá-lo de tudo aquilo que, ao homem comum,
apresenta-se como limitação
e jogá-lo definitivamente
dentro das conversas de portão

Sempre

É sempre igual o adeus
o pôr-do-sol é sempre especial
As noites sozinho são sempre longas
Estamos sempre a um passo do final

Olhos apaixonados sempre se olham do mesmo jeito
A música quando é boa é universal
A corrupção tem o mesmo caminho
As pessoas, o mesmo potencial

E a noite quando cai
sempre cela um acontecimento:
alguém que chega, outro que vai;
uma vida que de nós se despede
uma jovem a mais que se perde
um alguem que reencontra o pai

Pessoas que se encantam,
segredos que se contam
Amigos que se despedem para nunca mais

Amores divididos,
Policiais, bêbados, bandidos
A vida num ritmo semm paz

Poetas malditos entre a gente
sinceras mentiras, malicias inocentes
o grito que surge de dentro de um ventre
A renovação, todo dia, toda hora

Sempre

Encontro adiado

E volto às velhas fórmulas
pego os esquecidos chinelos
afrouxo a aperta gravata
e me preparo para o encontro adiado

Jogo fora a chave do carro,
o talão de cheques
a carteira de identidade
Livro-me do relógio
da noçao de cedo e tarde

Volto a face para o interlocutor
que por trás de meus olhos se esconde
porque é tempo de parar de evitá-lo

Descubro, assim, do outro lado
o monstro que repudio?
Eu - deixado de lado
Eu - sufocado
Eu - de quem me esquivo

Uma história qualquer

I

Era uma vez,
três moças muito prendadas:
Santa, que queria ser médica
Clara, que queria ser esposa
E Luzia que não queria ser nada.

Não se conheciam, mas moravam na mesma cidade
no seio do sertão do nordeste
terra de esperança, sofrimento e felicidade
que convivia com dois tipos de peste:
uma filha da natureza e a outra do homem:
a primeira a seca, a segunda a fome.

Santa era a mais bela
também a mais velha e decidida
Desde criança sofria muito
por ver tanta gente sofrida.

Aprendera as letras
Numa cidade vizinha
porém, ainda se dedicava
pensando no diploma que teria

Podendo ajudar, ela o fazia,
mas tratava de frear uma sentença,
pois, todo o povo já dizia
que era santa "desde a nascença"

II

Clara era a mais sedutora
sempre se gabando da educação que havia recebido
vaidosa e sonhadora
só esperava por um marido

Para os outros não olhava direito
só cuidando de si
não se importava, era o seu jeito
só pensava em sair dali

-Aqui tudo é muito triste,
mas o futuro não demora
espero só o casamento
e juro que vou me embora.

Luzia era a mais nova,
da vida não querendo nada
só desejando levá-la
conforme Deus mandava

Boa moça, boa irmã e boa filha
das mãos calejadas se orgulhava
preocupava-se sim, mas pouco,
como pouco também falava

Achava bonito os violeiros
e o jeito que a lua se derramava,
quando eles se reuniam no terreiro
sentia as músicas que eles tocavam

Então,
as mudanças vieram num certo verão
Para as três, o momento crucial:
Clara irritou-se com a demora.
Os pais de Luzia resolveram ir embora,
Santa passou nos exames da capital.

III

Luzia assustada, com olhar de novidade
colocou suas malas no primeiro ônibus da tarde
Iria com a família para qualquer lugar,
mas levaria consigo o som das violas e a luz do luar
Prometeu a um casal de vizinhos, antes de partir
- Pode o tempo passar, mas um dia volto aqui

Santa viu uma pequena multidão aglomerar-se na praça
foram se despedir da moça, cheios de orgulho
ela que cursaria Medicina de graça
para depois cuidar de seus filhos.
Não demonstrando nem surpresa, nem ansiedade
viajou no ônibus das três da tarde

Clara, desconfiada, quase não levou bagagem.
Nervosa entregou ao motorista o bilhete da passagem
Cansada da espera
resolveu ir ao encontro de seu marido
levando muita coragem e pouco dinheiro,
fugiu no ônibus das cinco

IV

Das três moças que partiram
para diferentes destinos
Três mulheres se formaram
ao seguirem seus caminhos

Luzia sofreu na cidade grande
a saudade de sua distante terra
passando por tempos difíceis foi avante
travando sua própria guerra

Serviu em bares, limpou casas, passou roupas
chorou à noite, ficou quase louca
para ajudar seus pais fez uma coisa ou outra
Retomou os estudos, passou por muitas entrevistas
fez muito teste até se tornar balconista
Penou um bocado para conhecer o sossego
quando os pais morreram já estava em outro emprego
Os irmãos já eram grandes e caminhavam sozinhos
tornou-se independente, fez vários amigos
expandiu seus horizontes de tanto que viajou
No interior de Minas conheceu o amor
E em uma noite sem estrela alguma
casou-se com um advogado tendo os irmãos por testemunha

V

Clara sofreu em suas andanças
vendo evaporar o dinheiro e as esperanças
Sem casa, família ou mantimento
parar num bordel foi questão de tempo

Deitou-se com homens estranhos
sujos, sem sentimento
perdeu a dignidade
humilhou-se, morreu por dentro
Foi explorada por toda a sorte de cafajeste
Conviveu com gente de toda espécie
deixou de ser sonhadora
Conseguiu vencer nesse terreno acidentado
e de explorada virou exploradora
abriu seu próprio bordel num pequeno sobrado

VI

Santa formou-se dignamente
primeira de sua turma,
mas logo descobriu
que a diferença era quase nenhuma

Ser médica e não ter recursos
abalava suas crenças
só palavras e boa vontade
não curava as doenças;
Voltando à sua cidade
não foi tão feliz quanto antes
tentava ajudar,
mas tinha o olhar distante
Era tanta anemia, tanta subnutrição
que teve a certeza
que a doença era visível
mas a cura não

Compreendeu a verdade gritante
que a cura para os males que o homem inventara
era um pouco de vergonha por parte dos governantes
Enquanto existisse desigualdade
existiriam lugares como sua cidade.

VII

Gente resignada a viver do jeito que desse
Até quando Deus quisesse
Rindo e se emocionando
com o som das violas, com o luar do sertão
Sonhando com casamento, com outra situação
buscando na ciência, curar a doença da civilização.
Ou então migrando
abandonando seu pedaço de terra
para sofrer com a saudade
dentro da selva de pedra.

Santa sofria diante da conclusão
de que essa gente pronta para o que der e vier
não chama a atenção
por se tratar de uma história qualquer

história de três mulheres
que não significavam nada:

Santa a que se decepcionara,
Clara a que se prostituíra
E Luzia a que se casara.

Idade dos Trens


A vida o que é senão um trem
destinado a descarilar?
Perceba que os minutos, as horas,
os dias correm nos trilhos.


As estações se sucedem
E os tolos preocupam-se com as que virão
Esperam coisas inatingíveis


E as paisagens perenes mudam:
Hoje o leve sopro primaveril;
Amanhã o pesado vento do frio do Inverno.


Ficar de braços cruzados de que adianta?
Convido-te agora para o vagão restaurante
tratar do que nos interessa:
se pular do trem é impossível -
amor, vinho, festa!


Aproveitamos o momento que foge
Agora, aqui, hoje!


Para que, quando mais tarde
o implacável maquinista
resolva parar
Alcancemos, sem sermos velhos,
A idade dos trens.

Passagem

Quisera eu ter a idade dos ventos
a força dos oceanos
a impassibilidade das pedras
ou a violência de mil vulcões

Conhecer a eternidade dos elementos
em contínua evolução:
Passando sempre
sem passar jamais.

Lado a lado

Juntos,
Afastados lado a lado
Próximos como antes
Equidistantes.

Perene

O que posso dizer
ante a perenidade das coisas
e dos seres?
- Viver agora o sempre
sempre o agora
Sempre sempre
agora agora.

Dístico de um desesperado

Meu caminho é tão triste e curto
que todas as ruas em que entro são sem saída.

Gosto é gosto...

Gostar demais de alguma coisa
Obsessão

Gostar de algo inalcançável,
Ilusão

Gostar sem ter motivo,
Fascinação

Gostar e não ser correspondido,
Rejeição

Gostar de expor os sentidos,
Emoção

Tudo afinal se resume
pelo gostar ou não gostar
Alguns gostos não tem porquê
nem sentido, nem explicação
nem rima
É algo pessoal e não há quem mude
Pois o gostar, por pior que seja, não se discute.

Aniversário - 2


Ano passado tive meu pior aniversário.
Minha mãe estava doente, internada.
Eu a seu lado: apenas companhia, mãos atadas.


Recebi abraços sinceros de pessoas que desconhecia
Graças a minha mãe que espalhou a notícia.
Foi diferente de tudo que eu já havia imaginado


Hoje, sem minha mãe,
percebo que foi o meu melhor aniversário.

Estranheza

É estranho perceber
que a mão já não afaga
que a boca já não beija
que o ombro já nao consola
nem suporta o peso do mundo


Nada, nada mais acontece
a não ser a distância,
o frio e as lembranças.
A não ser a tarde que sempre parece a mesma
o frio que sempre acompanha
o sol que sempre nasce
e sempre se retira para a lua

É estranho não ouvir mais algumas palavras,
não proferir mais alguns nomes
não escutar mais aquelas vozes

É estranho tudo continuar normal:
os dias se sucedem, dão lugar à noite
os meses dão lugar aos anos
as décadas, os séculos, os milênios
o começo dá lugar ao fim.

Pirraça

Criança fazendo pirraça,
extremamente irritante
usando desta chantagem-ameaça
como arma constante


Tem aquelas que choram
à moda dos alarmes que programamos:
quanto mais desprezadas.
mais o volume do choro vão aumentando.


Há outras que se atiram ao chão
simulando estranha convulsão
que nasce, cresce e morre
na cumplicidade das mães


Pobres mães! como sofrem
reféns da vontades infantes


Algumas se desesperam
e imploram pelo silêncio
Outras, exaltadas, erram e batem
Aumentando o alarde
A grande maioria mima
e se dobra ante a vontade dos filhos
e se corrige,
doa, faz tudo o que exigem


Não há quem não se incomode
com crianças mimadas,
condenando aquelas sob sua mira
Esquecem-se que, na verdade,
Em nossas relações o tempo todo
usamos da mesma e conscientemente ampliada
birra.

Á espera

Á espera
de uma simples tarde,
da felicidade,
do grito de gozo,
da sorte no jogo,
do sucesso no amor

Á espera
de notícias nas cartas,
de filhos,
de um pouco de malícia,
de uma existência menos crítica,
de uma luta sem dor

O homem esta sempre á espera
sem saber que nessa esfera
que habita
desperdiça o precioso tempo que tem
já que a vida que palpita,
não espera por ninguém

Esboço de um poema


Já desenhastes
a linha do desejo
contida num beijo
ou na alma de uma mulher?


Já desenhastes
a lágrima
que o amor desata
e ainda assim o peito arfa
e quer?


Desenhastes por acaso a ocasião
dos corpos unidos em laço
feito mar bravio e revolto
que incendeia qualquer embarcação?


Não, ainda não desenhastes.


É uma pena
que de tua pena
não tenha nascido
o ardor escondido
de algum coração.


Posto que da minha
esboço um poema
em linhas serenas
e sem perfeição.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010



O professor Ernesto tomava sopa na lua, isso mesmo, e ninguém lhe entendia as coisices. Dizia ter nascido velho, agora cabia-lhe adolescer até chegar à tenra idade.
O seu humor já denunciava que a primeira fase estava completa. Não mascarando as dúvidas todas com o ar sabe tudo dos adultos, tornara-se irritadissimamente impulsivo e idiossincrático.
Se era compreendido? Só pela garotada com quem andava. No começa tiraram galhofa, mas depois quando sentiram que o proceder do pensamento era o mesmo, entusiasmaram-no e enturmaram-se com ele. Passada longa semana, já nem o viam como diferente.
Aos outros da idade real do professor é que a coisa toda pareceu demais. Arrumaram um sem número de adjetivos não agradáveis para sua bula, declarando-o remédio intragável quase veneno.
Homem das cavernas, por não se importar e não se comportar como estava previsto. Indecente, imoral e imbecil, por tornar-se tão igual aos poucos educados espécimes com que passara a andar.
E o diploma, e o mestrado, e o doutorado?, indignavam-se incomodados com a alegria do professor, com o seu jeito de fazer o que lhe desse na veneta.
Alguns cuca-frescas, riam achando graça: “é fase ,logo passa.” Mas os modelos perfeitos para servirem de exemplo, tinham ar grave e não viam banalidade em atos tão estranhos. Podia incitar novos malucos.
E o professor ia seguindo, ouvidos moucos para o disse-que-alguém-disse. Não tinha microscópio para estudar estes seres tão contrários, pra que então “esquentar”. Só importava estar numa boa, curtindo a adolescência assim tardia, aprendendo palavras novas e ensinando como reinventar o dia, mil vezes num só dia , todos os dias seguidamente.
Nem ridículo, nem louco, nem decrépito, nem gênio, apenas feliz. Tomando café no sol e sopa na lua.