quinta-feira, 29 de julho de 2010

O Forasteiro


Por acaso que me veio esta lembrança. Alguém na fila do supermercado comentou algo a respeito dos quinze minutos de fama tão almejados nos dias de hoje e, sem que me desse conta, fui conduzido por Mnemonize de volta a minha cidade e a um episódio nela ocorrido.
Foi o caixeiro viajante, e não os correios, quem trouxe a noticia. Ele era o pai das noticias e sempre que retornava de suas andanças era o bem mais precioso que trazia. Não é a toa que tinha lá sua influencia. O que dizia era tido como verdade absoluta, mesmo porque o povo não tinha muita vontade de questionar essas verdades.
Ele chegou com o sorriso no rosto e dizendo a quem quisesse ouvir que desta vez a nossa cidade iria aparecer no mapa. Logo juntou gente para saber do que ele falava e sem pausas nem para respirar ele pronunciou:
- O ator principal da novela das oito declarou que fará uma visita a nossa cidade no próximo feriado.
Nem bem ele acabou de pronunciar aquelas palavras, os ouvintes saíram para contar a novidade, como se eles próprios a tivessem escutado da boca do galã. É verdade que para uns entrou por um ouvido e saiu pelo outro, mas a grande maioria fez daquilo o ponto mais alto de suas pacatas vidas.
- Atrás deste ator virá uma parafernália incrível e homens com charutos fedorentos! Daí adeus sossego, adeus tranqüilidade! - bradou o Manolo, descendente de espanhóis e dono do único boteco da cidade, com seu pessimismo característico, mesmo porque duvidava que gente como aquela gente saberia apreciar seu estabelecimento.
Mas foi o único. O restante saiu a comemorar e se preparar para a vinda do ator.
O excelentíssimo senhor prefeito, orgulhoso com o acontecimento, refez todo o seu vestuário...verdade que não explicou de onde surgiu a renda para tal extravagância...O certo é que deveria estar a altura do visitante, não queria aparentar um homem atrasado nas questões de moda e bom gosto: mandou copiar os modelos de terno que vira o ator usar em um de seus filmes. Nem atentou para o fato de se tratar de uma comédia, com um figurino um tanto exagerado.
- O forasteiro trará progresso e modernidade... Fora o mundo de gente que vira nos visitar ao saber que ele esteve por aqui... - repetia sem parar como criança diante de um brinquedo novo.
Flora, como não me lembrar dela? Conseguiu ficar ainda mais bonita, desfilando todas as roupas caras que eu mesmo havia lhe presenteado um dia. Em pensar que eu lhe devolvi todos os presentes que me dera! Até mesmo o colar de pérolas, já estava programado para brilhar em seu pescoço no dia em que o ator chegasse.
De repente, todo mundo começou a agir estranho pensando no feriado que se aproximava.
A sociedade das senhoras do bom costume, modo carinhoso que o pessoal do colégio apelidava as matronas defensoras da moral e das tradições, quase se desfez. As nossas censoras estavam mais preocupadas em casar suas filhas com o excelente partido, do que em fiscalizar os namoros mais ousados na praça central. Nunca mais vi tanta moça bonita debruçada na janela como naqueles dias.
A dona Rita, velha de posses, e que sempre colocara a sua filha em uma redoma de vidro, longe dos espertinhos da cidade, exibia um sorriso vitorioso, como se dizendo:
- Minha Carla há de encantar o ator, mesmo porque com o dote que receberá, acho difícil não levá-la junto quando voltar para a cidade grande.
Meu amigo Aldo, um entregador de jornais, entenda-se da única gazeta da cidade, passou a fazer aulas de canto para melhorar o seu timbre de voz:
-Um ator deve ter boa voz. Quem sabe ele não me descobre.
-Mas não disse que iríamos embora daqui para cursar jornalismo? – quis saber.
Ele deu de ombros e repetiu-me uma palavra que aprendera há poucos dias atrás: versatilidade.
Fora os descrentes, como eu, todos se agarram a esta visita como se fosse a solução milagrosa para todos os males.
Com a aproximação do feriado, alguém teve a brilhante idéia de uma festa de recepção. Novamente o nosso pequeno orçamento fez milagre, pois se planejou uma festa tão grandiosa que um semestre seria pouco para refazer o rombo nos cofres públicos. Teria de tudo: bandeiras, barracas, banda, palanque improvisado, queima de fogos programada, a chave da cidade e até um tapete vermelho de veludo.
O feriado finalmente chegou e todo povo eufórico e ansioso foi ás ruas. Um repórter da gazeta entrevistava até criança para saber a quanta andava a expectativa. E o fazia de maneira ímpar, feliz com a exclusividade da notícia, que havia sido garantida em acordo a portas fechadas com o prefeito.Mas afinal, ele iria perder para a entrevista para quem se nenhum outro veículo quis noticiar o acontecimento?
As horas passavam, nunca mais vi tanto sorriso em minha vida. O povo driblava a fome, já que banquete mesmo só em presença do ilustre visitante, e como não podia comer, sorria.
Novamente minha descrença convence o meu estômago que por mais bela que fosse aquela imagem de pessoas felizes, nada melhor do que a minha boa e velha geladeira.
Eu almoçando – uma hora; Aldo esperando – duas horas; Carla na janela – três horas.
Ás cinco horas, ninguém mais reparava na bela Flora que havia monopolizado todos os olhares ate então, só interessava mesmo a mesa dos petiscos.
Um carro, uma falsa esperança, chegou até a entrada da cidade e deu meia volta dali mesmo, num distinto cavalo de pau. Nem chegou a revelar o motorista, mas levou com ele todos os sorrisos que haviam sobrevivido.
O povo pensou em se dispersar após tal acontecimento. Mas isto ficou no terreno das idéias, e como se tivesse sido combinado, transformaram a mesa do banquete em estrela principal da historia.
Fim de festa. O ator não pisara mesmo na cidade que, obrigada a voltar ao seu curso normal, jamais fora a mesma.
O Manolo mudou-se. Não de cidade, mas sim de profissão. Deixou de ser dono de bar, virou político, afinal, foi o único que não queria a vinda do tal ator e o único a quem o povo escutou ao constatar que ele não viria. Flora casou-se com ele num período curtíssimo de tempo: assim que ficou claro nas pesquisas que ganharia a eleição para prefeito.
O antigo prefeito, dizem, acabou sócio do caixeiro viajante que levou com ele aqueles ternos todos e vendeu-os a peso de ouro garantindo que fora usado pelo galã da novela das oito.
Carla, para desespero de sua mãe, fugiu com Aldo, para destino desconhecido.
Eu vim para São Paulo para ingressar na faculdade de jornalismo e não mais retornei para aquele lugar onde vivi os anos mais despretensiosos de minha vida. Hoje tenho uma coluna em um jornal de tiragem estadual.
Quanto ao ator? Encontrei-me com ele por acaso, voltando de uma matéria, e resolvi tirar a dúvida. Sem revelar que vivi aquele episódio e o que ele representou para aquela cidadezinha, perguntei-lhe, mascarando a curiosidade como jornalística, se era verdade que pretendeu, em alguma época de sua vida, visitar aquela cidade.
Fez um esforço para lembrar-se e depois me respondeu com ar de tédio:
- Pretendi sim. Queria um lugar calmo em que pudesse descansar, sem badalações.
- Soube que não foi. O que aconteceu então?
- Enganei-me na pesquisa. Quando estava próximo da cidade, pedi a minha noiva, que seguia em outro carro, que fosse verificar se era mesmo calmo o lugar e se havia uma pousada ou coisa do tipo onde pudéssemos ficar. Ela nem chegou a entrar na cidade. Parou diante de uma balbúrdia tão grande, de uma barulheira tão incrível, que resolveu dar a meia volta dali mesmo. Infelizmente não era o lugar que imaginei, definitivamente não era o lugar que queria para mim.

Píramo e Tisbe


Da parede à fenda
Que dá voz aos amores
Não sabe que o triste fado já tem pronto
Tal sorte de dissabores
Que mudarão em tragédia
O primeiro e último encontro


Primeiro e ansiosa, a jovem enamorada
Junto a amoreira branca espera
Logo porém tem de bater em retirada
Por estar no caminho de uma fera


O véu que em sua fuga lhe escapa
Logo dilacerado pelo leão
é das moiras, a derradeira trapaça
Trazendo ao recém chegado tamanha consternação


Confundindo do amante o discernimento :
Pois acredita ser da sua amada que saíra ilesa
o sangue presente no lenço
que na verdade era de outra presa


Inconformado por um episódio tão triste
Do existir desiste, pois já não lhe resta nada
A lamentar o fim de sua Tisbe
Encontra seu alento na fria lâmina da espada


No seu retorno a jovem o encontra e queda-se horrorizada:
- Não sei, Píramo, viver sem ti nem mais um segundo,
por isso escolho como minha algoz a mesma espada
pra te reencontrar em outro mundo


O rubro tapete que gera tal tragédia
Absorvido pela terra é por inteiro
E os frutos da árvore que antes eram brancos
Em nome desse amor, são tingidos de vermelho

Á Dafne


Se minhas flechas não estão a sua altura,
se meus dons não se comparam aos seus
Lembra-se, arqueiro, que se atinges outras criaturas
só eu posso ferir-lhe , mesmo sendo um deus.


Dizendo isto, Cupido exímio atirador
lança duas flechas ao mesmo tempo:
Atingindo Apolo com a seta do amor
e a ninfa Dafne com a do desprezo


O deus por ela obcecado inicia a perseguição
enquanto a jovem donzela lhe foge como o vento.
Tomado como está pela paixão
alcançá-la é questão de tempo.


Sem forças e tomada pelo desespero
Ela recorre a seu pai
Cobrando-lhe a promessa de livrá-la do casamento


E o rio Peneu cumpre sua promessa:
intervém afastando o pretendente
E a jovem é em árvore transfigurada
Fincando no solo suas raízes eternamente


Apolo, consternado, abraça seu amor verdadeiro
Tornando-a sua favorita entre todas as plantações
Passando as folhas do loureiro, árvore em que se transformara
No eterno símbolo da mais alta glória dos campeões.

Musas


Oh, graciosas Camenas
Venham a mim uma a uma é o que vos peço
E inspirem divinamente a minha pena
para que eu tenha, nessa empresa, sucesso


Que venha, com sua pequena lira, emprestar-me a maestria de Safo
Você que domina a poesia erótica, amável Erato


De máscara trágica, sempre solene
Me brinde com sua presença, na tragédia, poetisa Melpômene


Sempre rodopiante, com sua lira e pectro
Se a arte for a dança, que Terpsícore esteja por perto


Para que eu domine a linguagem do amor como se deve
Na poesia lírica, socorra-me Euterpe


Com sua bela voz, me conduza por onde nunca estive
Na poesia épica, me inspire a musa Callíope


Me ajude ainda, vós que faz brotar flores e usa cora de hera
Com sua máscara cômica, Thalia que preside a comédia


Que eu chegue aos deuses, apesar de minha voz fraca
Acompanha-me Polihymnia, para a poesia e música sacra


Para que não me falte argumento ou memória
Que me conduza Clio, que preside a História


Enfim, para que possa ler o firmamento com maestria
Urania, a celestial, me leve pelo terreno da Astronomia

As parcas


Trabalha a roca infatigável
No paço onde o fado é talhado a bronze
Tecem a trama inexorável
Sempre de branco, as três filhas da noite


Entidades aos deuses insubordinadas
Somente a elas o destino dos homens compete
Trabalhando de forma sempre ordenada
Decidem quem nasce, como vive e quando perece


Cloto, entre as moiras a primeira, inicia o movimento
Coloca no fuso, o fio de linho da vida
Determinando assim o nascimento


Láquesis, a fiandeira de verdade
Determina com sua vara qual será do fio o comprimento
E ao trançá-lo, qual será a sua qualidade


E por fim, Àtropos, a parca que não escuta a ninguém
Com o golpe letal de sua tesoura
Determina da vida a morte, o “não mais além”


Imparciais, indiferentes, impassíveis
Entrelaçam da vida a estrada
Mudar-lhes a opinião é impossível
Pois do derradeiro destino ninguém escapa

Cassandra


Bela Cassandra, desde seu nascimento
Teve seu destino assim desenhado
Quando fostes esquecida num templo
Ao deus arqueiro consagrado


De princesa a pitonisa
Despertou o desejo no líder das Musas
Sendo condenada a profetizar
E nunca ser ouvida, em resposta à sua recusa


Soube o verdadeiro intento
Do cavalo de madeira, ledo engano
Que colocado muralha a dentro
Foi a ruína do povo troiano.


Por Ajax no templo de Atena foi imolada,
Levada à Grécia, por Agamênon, como escrava
Enxergou nas piras à deusa Vesta
Sua própria morte, pelas mãos de Clitmenestra.

Contaminação


Não murmure, não respire. O amor está no ar e é fácil contraí-lo.
Vá e perceba! Os homens saem para suas relações sociais como quem vai à guerra: estão montados em sua indiferença; inertes em seus castelos-redomas de vidro.
Não flerte! Nem para os olhos há antídoto. Talvez tudo comece mesmo por aí.
No meio de tantas respirações, pára e repara a tua. Tão calma, tão pausada e só. Só andam pelas calçadas os amores frustrados; só, vão calmos os desesperados.
Não dê mais nenhum passo. Ele [o mais sublime dos sentimentos] já te percebeu, e agora te estuda como vítima. Parece que gostou do que viu. Estás perdido justamente por não se ter perdido ainda.
Sinta o concreto que levam os homens no coração. É pesado e duro e talvez nada seja capaz de demovê-lo. Cada vez mais eles pavimentam e quando menos se percebe lá está: coração, fígado, rins, estômago e intestinos pavimentados.
Sinto muito, mas acaba de ser infectado. Posso te dar o rumo da contaminação: começou em seu sangue. Lentamente, pelas suas veias irrompem esperanças e emoções. Depois atacará seu sistema nervoso central. Não... Não são anormais essas palpitações e este calafrio.
Mas não te iludas, difícil é escapar dos sintomas. Um nervosismo se apossará de ti, e talvez ria sem motivo e chore sem razão. Então já terás escolhido seu algoz: aquele por quem seu coração baterá acelerado, ainda que pareça parar a cada vez que o vir.
E todo minuto e segundo, sempre que dele te aproximares, um redemoinho se formará dentro de ti. Darás longos suspiros e estará então completo o vício.
Essa doença vai fazer tão mal que tudo parecerá bom. E talvez nem controles o choro, a sensação de desespero, de morte iminente, sempre que dele te afastares.
Prognóstico? Dias e noites suspensos, suspeitos de alegria.
E lá fora, continuarão todos com cara de chuva. Imunes ao teu doce desespero.
Saída? Só há uma. Livrar-se de todo esse amor em ti trancafiado e ir atrás de teu algoz. Sofrer seus beijos, suas carícias, todo esse amor, paixão, atração, ou seja lá o nome que lhe derem. Só essa saída : incondicionalmente ser feliz.
Depois sim, poderá reerguer sua guarda e voltar para a palidez dos solitários, à amargura dos que não vêem o céu e apenas o chão. Excluir de ti toda e qualquer emoção que só espera para aflorar novamente.
Mas enquanto isso não acontece, é melhor tratar da cura. E olhe quanto tempo está perdendo!

Fusão


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Na conversa dos toques
as peles se sentem, se unem
os corpos se reconhecem,
se solidificam


A boca explora,
as línguas convergem
tudo à linguagem do beijo

Descobrem no outro  o território propício ao desejo




Uma nova criatura
se desenvolve, surge.
Amador e coisa amada,                          
feito mágica, se fundem:

Bicéfalo
Quadrúpede
Unicorde.



A Fera


Uma fera que me vigia,
espreita-me na sombra,
aguardando para me atacar

Sinto suas garras frias
sobre a minha garganta
pronto para beber meu sangue
e me contaminar

Conhece meus medos,
envenena-me por dentro;
fazendo dos meus segredos
seu maior brinquedo

O animal que me tolhe,
que me aflige, me domina
e que some e aparece
num lampejo

vislumbro-o sempre
que estou diante do espelho

Mãe


Até hoje não entendo o porquê
de sua ausência
Tenho lembrança de sua doce presença
E dos bons e maus bocados ao lado de ti

Lembro-me das vezes em que te vi sorrir
E das vezes que chorou comigo quando sofri

Meu exemplo maior de mulher, de melhor
de amor

Pensando no que você foi durante a vida inteira
Chego perto de entender o que me machuca tanto:

Deus me roubou você
Porque é no céu que devem viver
Eternamente
os anjos

O menino que passa


Meu Deus, como quero o menino que passa!
E meu olhar arrasta
E meu querer inflama


Saberá o menino de sua graça?
Saberá ele de sua fama?
O menino terá, pois, noção do quanto mexe comigo?
Ou será este menino apenas inocente amigo?


Quero, e como, o menino que passa
Não para troféu
Ou ganhar aposta
Quero-o meu
E esse querer não se basta


Beijar o menino que passa inerte
Com ele ter algum lance:
Que seja mero flerte
Ou tórrido romance


Quero, repito, o menino que passa
Vizinho dos meus sentimentos
Que permaneça – pelo menos por um tempo
Posto que o levo comigo sempre em meu pensamento

Fome

A fome é o que me move:
fome de viver,
de conhecer,
de aprender,
de amar,
de sonhar...

Faminta sempre,
gulosa às vezes,
satisfeita nunca.

Aniversário


As pegadas que vamos deixando no mundo
Os sorrisos que colhemos no caminho
As amizades que encontramos
As palavras que proferimos


Tudo nos deixa mais forte
Tudo nos ensina
E vai moldando nossa sorte


Nenhum encontro é à toa
Modificamos-nos e mudamos
As pessoas


E as idades passam
Mas não trazem o cansaço,
A velhice, a perda da esperança
E da inocência


Ao contrário
Esculpem em nossas almas
As marcas que levaremos
sinais da experiência


A cada novo aniversário
Agregamos uma gama de riqueza


Umas pequenas outras maiores
Que nos preparam para o mundo
Tornando-nos ainda melhores
Para o futuro

Alfabeto do poeta


Arrisque uma rima qualquer
Brinque com um som ou fonema
Corte um mote no meio
Dele construa um poema


E que seja para falar de amor
Fracasso, tédio, paixão
Grite para o mundo
Havendo ou não explicação


Inspire-se no que te aborrece
Jogue fora seus preconceitos
Limite é algo que desconhece
Maior é o tamanho do seu desejo


Não despreze o feio, o triste, o indizível
O tema está no mundo
Praticamente com o mundo em nós
Qualquer realidade é possível


Rascunhos são sua melhor leitura do momento
Separe-se deles, mantendo-os
Talvez os retome em tempo
Use e abuse dos seus sentimentos


Vasculhe na gaveta da alma inquieta
Xeretando as formas, os "sins" e "nãos"
Yagos, Bentos e Capitus brotando de sua imaginação
Zás...te fazendo além sonhador, um poeta

Pretérito


Sem replay
Sem esboço
Sem retoque
Sem retrocesso
Sem recomeço
Sem possibilidade do arremate
Sem maneira pra voltar


As palavras ditas,
Os gestos realizados
Habitam o universo intocável
Do ontem


Arrepender-se,
Lamentar-se,
É uma possibilidade,
Não uma solução


É sempre tarde


Por excelência
Pretérito é tempo
Da impotência

Querer



Na caixa dos meus desejos
Escolho meu querer:


Quero apenas um segundo do mundo
Nada que não caiba em minhas mãos
Nada que se perca na estrada
Nada que me afaste do meu chão


Quero apenas o sol do fim de tarde
Nem tempestade, nem brisa, nem trovão


Quero o trivial com a família
O corriqueiro com os amigos
A conversa com a ilusão


Quero pouco e quero demais
Tudo que não me fuja à visão


Quero poder não querer nada
De mãos dadas com a loucura
Combinada à razão


Fazer brotar sorrisos
Secar lágrimas se preciso
Nada que seja em vão


Vir, ver e vencer
Somente viver
Sem explicação

Pra ser poesia...


Disse um senhor ilustre
que pra ser poesia
deveria ter rima
deveria falar de amor
jamais de uma esquina


Deveria conter palavras cultas
ainda que jamais proferidas
Deveria falar com a forma mais do que com a língua


E ser metrificada
composta na exatidão das rimas ricas
E ser pintada
apenas com imagens líricas...


Eu que não sou ninguém
Que não me perco em sobrenomes e notoriedade
Entendo por poesia
escrever-se o que se tem vontade
o que apetece a alma
e o que é trivial
Seguindo e quebrando as regras
Sem perder jamais
A liberdade.

Espelho


Quando olhei em teus olhos,
vi neles meu reflexo.
Quando olhastes nos meus,
vistes apenas a fenda no espelho...

Rápido


Haveria mais tempo
para mover tuas paixões
e redimir tuas vontades
Se tudo não fosse assim: tão rápido.

Terceto n° 1



Quem não sonha,
Não vive
- Pesadela!

Ilhas


Nós, minúsculos continentes separados
Na República sentados
Olhando ilhas


Flutuando sobre as pernas
lépidas se deslocam
ensimesmadas
Na mesmice dos instantes


Vez ou outra nos vislumbram
Intrigantes, interrogadas
querendo entender o porquê
de nossa estática


Mas seguem com seus pensamentos náufragos
e o ir e vir incansável, incessante
mar revolto de arquipélagos
de ilhas equidistantes

Antropofagia


Você me pergunta
O porquê das minhas manias
Pronto para me mudar
Na sua antropofagia


Eu não estou nem aí para o mundo
Sem essa de ser convencional
Tenho minhas próprias regras
Para decidir o que é normal


Não pense que caminho
Cabisbaixo
Para a aniquilação
Vou de cabeça erguida
Consciente de quem sou


Eu danço o som que me faz bem
E leio aquilo o que quero
Não irei imitar ninguém
Ser apenas mais um zero


Porque não sei ter
As mesmas opiniões
Fazer parte da maioria
Só para te satisfazer
Isso não é democracia

Voz


Tudo nem parece igual ao que já vivemos
É só silêncio e ninguém pra nos ouvir
Lembra-se do pôr do sol que olhávamos maravilhados?
Hoje é tão banal.


Estou sem ação, não consigo dormir
Me dê sua mão, me deixe ir
Para um mundo de imaginação
Onde alguém escute minha voz
E onde não nos sintamos tão diferentes de nós


Eu vejo uma lágrima e ela nada me diz
Eu sei que dá risada, mas não é feliz


Você já percebeu que o verso mais bonito
É aquele que nunca foi dito?
Ou será que alguém ainda está pra dizer?


Eu só peço então que fique à vontade comigo
E escute, por favor, a minha voz
Não procure razão nas coisas que digo
Só não permita o silêncio entre nós.

Guerra


Há pouca água no país
E muita sede.
Há falta de bandagens nos hospitais
E muitas cicatrizes.


Solidão que caminha com a morte;
Indiferença entre fracos e fortes;
Ausência total de vencedores;
Arsenal de horrores.


Não há lados para serem escolhidos.
Sem justiça,
Somos todos vencidos
Com a banalização diária da morte

Palavra


A simples palavra
duramente
ostentada
Rara palavra:
estritamente
individualizada

Toda transformada em tema
Enfeitada de poema

Cativante cativada
ordem - desordenada
Nula nunca,
humanizada.
Enfeitiçando
com o som
e remodelando a
realidade

Fácil nem sempre,
as vezes indomável
Brusca e delicada
ingenuamente maliciosa
orgulhosamente simplificada

Ela que transforma
linha em versos
inventando universos
(ao seduzir os poetas)
naturalmente inversa
e inversamente direta...








Quem é você?


Quem é você?
Com essa mania de ficar
grudado em mim,
de ser verdade, ser mentira,
tudo enfim.
De inspirar-me rimas ricas,
rimas pobres
e todos os acordes
que não sei distinguir
mas que adoro ouvir

Quem é você?
Com um silêncio
que tem muito a dizer
Com uma ansiosa calma,
vontade escandalosa de viver
e me ensinar
a te conter
Quem é você?
que me desvenda
e não se deixa conhecer.
Que me decifra, me esquece
Me alegra e me entristece
Que a cada dia
eu preciso pra
sobreviver

Quem é você?

Reencontro


De repente, quando te vi
veio tanta coisa
veio tua boca
veio o meu silêncio
veio nosso desejo
veio o meu medo


De repente, quando te vi
veio tanta coisa
veio tão sem ordem
veio tão sem jeito
veio tão sem vir


De repente, assim de repente
Voltou


Me tirou a fala
Me tirou o chão
Me tirou de órbita
Me tirou de mim


De repente assim
Passou


Levou meu sorriso
me deixou sem graça
me deixou em cacos
tornou-me embaraço
fez-se nó em mim


Depois foi cessando......
Normalizou-se o caos
atracaram-se as naus
que o passado ergueu


Sem peito arfando
sem mão tremendo
Fui te esquecendo
como me esqueceu


Beijei outras bocas
nelas encontrei auxílio
fiz as pazes comigo


Quando te vi de novo
já então sorria
E assim de repente
te espantou minha alegria


Quis voltar, quis me prender
Mas eu já não podia
Quis se dar pra receber
ser luz para o meu dia


Mas não veio nada finalmente
E te deixei no passado, assim de repente.

A poesia que não sei


Não me peça a poesia que não sei
A inspiração enterrou-se em mim
Tudo o que escrevo é duro e áspero
Tem cheiro de flores murchas 
Talvez a terra sepulte
Esse amor casto, puro, que morreu
inocente, o infeliz,
sempre, existiu, nunca cresceu
 Sem pensamentos, sem murmúrios
Não chores em vão
Era inevitável, eu sei
Mal algum foi tão claro

Sucumbiu, o pobre, por falta de costumes
Atacou-o a ansiedade, fraquejou-o a saudade
matou-o o ciúme

Morreu novo, repito, esse amor
Poucos meses de vida
achou-se forte e tentou voar
nem foi ventania e sim brisa leve
que o fez tropeçar

Tão alto se encontrava
que não pôde se amparar
caiu rapidamente
pretensão de gota que quer ser mar

Enterrada tanta paixão
Mal sabem o que descobri:
a ânsia de noticiar
deu luz a um poema
fraco e sem graça
e que como o amor, termina aqui...
 

Disco


Luzes. Música. Gente.
Música, luzes, dança
Dança, gente, bebida
- Seu nome ?
Luzes. Gente. Bebida
- Já Volto.
Gente. Gente. Dança
- Cheguei agora
Música, luzes, música
- Posso te conhecer ?
Luzes, música, luzes
- Estou acompanhada
Luzes, luzes, vertigem
- O que está acontecendo aqui ?
Luzes, luzes, risadas
Gente. Gente, conversa
Conversa. Gente. Empurrões.
Som, som, confusão.
Gente, gente, gente.
Barulho, barulho, estampido
Música, luzes, pavor
Luz branca, azul
O vermelho.....
Rostos, rostos, música ao longe.
Gente, gente, gente
Nem música, nem gente, nem luz.

A Bruxa


Cortam as espadas,
Soam as trombetas,
Mais uma bela será amaldiçoada.
Arderá na fogueira da ignorância
Por fazer arder o desejo no homem,
Por ver o quê outros não enxergam
Por incutir medo aos bravos,
Por falar bem em uma época
em que certo é o silêncio feminino.
Por curar e saber das coisas
que podem salvar mas que serão
tidas como influência demoníaca.
- Como ousas bruxa ! ?
Falar mais alto do que a Igreja!?
Ela que não admite perguntas,
questionamentos, contestações?
Teu pecado maior
foi nascer mulher
numa Idade de Homens.
Todos os crimes que estes te
Puderem imputar, o farão.
E tu serás culpada,
cem vezes culpada.
Acabarão com tua beleza
e com a sedução
que teu corpo emana.
Um passo à frente
de homens e mulheres nas idéias
Um passo à frente
no caminho que conduz
às autoridades
que levam à força
que levam à forca
ou que simplesmente
jogam ao fogo.

Camaleão


Agrade a gregos e troianos
Aprenda que a língua que comunica
Não é universal, é volúvel,
perfeitamente maleável.
Não tentes falar brandamente
com aqueles que gritam,
não te entenderão.
Não fales mentiras
àquele que te apresentas verdades
finja acreditar nelas
e terás respeito.
Homen sábio é aquele
que se desdobra conforme a curva:
Se esta é para a direita, direito
Se esta é para a esquerda, esquerdo.
Que adianta o português culto e bom
ante os que não o entendem ?
Que adianta o som de cítaras
ante aqueles que só ouviram o violão ?
Seja chuva na chuva
Sol no sol
Ainda que não seja
nem um nem outro.
Guarde para você o que realmente é
e estará perfeitamente
dentro do sistema,
de acordo com ele,
agradando a todos ainda que
realmente não agrade a si mesmo...

Poemas, parte inexplicável de mim

Não gosto de poemas. Não gosto de escrever poemas, sou mais ligada ao conto. No entanto, rabisco sempre que posso alguma coisa. Aí vão meus rascunhos e rabiscos...Não me condenem por isso,só estou os libertando

Antes falar a língua do nativo, do que ser um bílingue incompreendido



Sei lá, sempre gostei de escrever. Quando digo sempre é sempre mesmo, não é modo de falar. Quando eu era pequena inventava histórias e segundo dizia a minha mãe, pobre da visita que eu pegava para Cristo.
Escrever era uma necessidade...As histórias, os poemas, as músicas já estão em mim, cabe realizar o parto deles, rs.
Todo mundo que escreve tem uma única pretensão, ser lido. Se houver uma crítica, ótimo. Sinal de que alguém leu. Se o texto te provocar ou causar-te estranheza, já é alguma coisa...Movê-lo da inércia do instante, já seria o suficiente para mim!!!
Pois então... aqui irão conhecer todas as minhas faces e meus disfarces; meu lado angelical e meus demônios interiores...
Logo, sede bem vindos e "Deixai a esperança vos que entrais", rs.